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31/07/20 13:06

Florestan Fernandes e Celso Furtado: conhecimento a serviço do povo

Renovar o conhecimento legado por Celso Furtado e Florestan Fernandes nos arma para a luta. Não somente contra o atual governo mas contra nossas elites, que o apoiam na desconstituição do Estado Nacional e dos direitos políticos e sociais conquistados na luta pelo nosso povo trabalhador.

Quero deixar marcada minha posição política nesse momento gravíssimo de nossa vida como nação e povo. Vou fazer isso me reportando ao centenário de dois brasileiros: Florestan Fernandes e Celso Furtado, dois gênios da raça, dois gigantes intelectuais. Mais que isso, ambos foram políticos de ação. Faziam de seus estudos, pesquisas e escritos instrumentos de luta social, comprometidos com o Brasil e seu povo trabalhador.

Florestan, abertamente marxista e voltado para a libertação da classe trabalhadora, para o socialismo. Furtado, voltado para o desenvolvimento soberano e igualitário do Brasil. Ambos colocaram seu saber e estudos a serviço do país e do povo e não vacilaram em tomar partido, ter lado, assumir responsabilidades políticas em governos e no parlamento.

Os dois viam na educação um caminho para conscientizar a nação e o povo de sua condição social e política, da pobreza, do subdesenvolvimento, da desigualdade, da dominação de classes, da submissão de nossa soberania ao Império. Ambos releram nosso Brasil.

Retomar o fio da história

Celso consolidou a visão de Caio Prado: somos e sempre fomos um país capitalista dependente e integrado aos impérios. Ambos viam no Estado que a dura penas constituímos nos últimos 100 anos um instrumento para nossa inacabada independência, democracia e justiça social.

Furtado, um reformador social. Florestan, um revolucionário que já não acreditava em nossa burguesia como revolucionária, nem mesmo nacionalista, um tema presente sempre em Furtado. Um social-democrata, outro pela revolução social, desacreditado de nossas elites. Os fatos posteriores às mortes deles só comprovam e reafirmam suas convicções e ideias.

Os escritos, estudos e pesquisas, as propostas e saídas para o Brasil, os sonhos e ideais de Furtado e Florestan nunca estiveram tão presentes e necessários para nos armar na luta política  e social, que apenas começou, para a retomada do fio da nossa História. Fio de novo rompido, como em 64, pela ascensão ao poder, agora, da extrema direita e do militarismo, da ideologia ultraliberal, do obscurantismo associado ao fundamentalismo religioso. E o mais grave, da submissão de nossa soberania ao Império.

Assim, é hora de resgatar o legado de Furtado e Florestan e fazer a batalha de ideias e narrativas, disputar as mentes e corações com a inteligência desses dois grandes brasileiros, fazer da frente da disputa das ideias uma prioridade, nas escolas, na imprensa, na cultura, junto a juventude e nas fábricas e campos, nas ruas e redes, de nosso imenso Brasil.

Reler o mundo e o Brasil

Há uma releitura do Brasil sendo feita nas lutas sociais. Pelos estudantes que se manifestaram aos milhões conta o desmonte da universidade pública; pelos entregadores que se levantam contra a precarização e a destruição dos direitos dos trabalhadores; pelos sem-terra que fazem a reforma agrária, a agroecologia e a soberania alimentar; pelas mulheres que nos alertam sobre os trabalhos de cuidado e a necessidade de seu reconhecimento e de investimentos públicos em saúde e educação; pelos povos indígenas que defendem seus territórios contra a espoliação e destruição de recursos naturais. Pelos trabalhadores que lutam por seu emprego e renda em plena pandemia, pelos seus direitos políticos e sociais ameaçados; pela juventude pobre, negra vítima do desemprego, da violência policial.

Bolsonaro e as elites atacam a educação e a cultura, as universidades, os professores e pesquisadores, a liberdade de ensino e de expressão, exatamente porque sabem da importância da formação e da informação na luta política.

Nosso legado desenvolvimentista e revolucionário, síntese das obras e da vida desses dois pensadores nacionais, deve ser renovado e atualizado para nos armar na luta. Não somente contra o atual governo mas contra nossas elites, que o apoiam na desconstituição do Estado Nacional e dos direitos políticos e sociais conquistados na luta pelo nosso povo trabalhador.

Fazer, como eles, do conhecimento e da cultura um instrumento a serviço do nosso povo e reler com eles o mundo e o Brasil de hoje para a luta política e social, para a reforma e a revolução inacabada que caberá a nós e as atuais gerações concluir.

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