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13/10/20 11:38

José Dirceu: 'A resposta está na unidade da esquerda e na construção de um programa de mudanças'

É preciso implantar reformas estruturais, dar resposta ao novo mundo do trabalho. Maré das mudanças não respeita lideranças

Meu último artigo “A esquerda precisa fazer uma releitura do Brasil” foi objetivo de várias manifestações de leitores, de apoio. Recebi muitas mensagens via WhatsApp me perguntando: e daí? Quais são as saídas e propostas?

Vou tentar refletir aqui sobre as possíveis alternativas existentes para a esquerda. Como pelas eleições municipais. Entre os analistas políticos, é voz corrente afirmar que a esquerda está dividida, o que é verdade em termos. Mas esta afirmação vale também para a direita, que, se observarmos, mesmo liderando as pesquisas eleitorais, aparece dividida nas principais capitais do país como Rio e São Paulo. Em São Paulo, disputam a liderança Russomanno e Covas; no Rio, Crivella e Paes. Isso sem mencionar os candidatos apoiados por Bolsonaro em várias capitais e cidades com previsíveis dois turnos.

Na prática, não há lideranças novas nos dois lados que disputam as eleições como nos mostram as pesquisas relativas ao Rio, São Paulo e outras cidades.  Há exceções, como Salvador e Fortaleza, mas elas são raras. Isso significa que o novo ainda não nasceu. As exceções, as jovens lideranças, convivem com o velho sistema partidário que sobrevive: a direita liberal e a ultra direita, agora reforçada pelo Centrão, e a esquerda tradicional, com alguns sinais de renovação no PSOL, PT e PSB. 

PSDB-DEM-MDB procuram se consolidar como polo centrista liberal para 2022. PDT-PSB idem sob a liderança de Ciro Gomes que, em sua trajetória, migrou da centro- direita para a centro-esquerda. No fundo os projetos têm raízes históricas e reproduzem duas alternativas: a ultraliberal, que pretende se livrar do autoritarismo, obscurantismo e fundamentalismo representado por Bolsonaro e sua aliança com os militares e religiosos atrelados ao domínio do Estados Unidos; e a da esquerda nacional desenvolvimentista e suas vertentes trabalhista, social-democrata e socialista.

Nada de novo aqui nos trópicos, à exceção das novas e importantes agendas ambiental e de gênero, raça e sexo. A questão nacional, democrática e social continua no horizonte da nação e a desigualdade brutal e imoral é assimilada como normal por uma elite decadente e sem identidade nacional.

No fundo, tanto na centro-direita como na centro- esquerda os projetos são históricos e têm antecedentes na questão nacional e democrática, na questão social (marcada pela enorme concentração do poder, renda, riqueza, propriedade) e na luta dos trabalhadores, das classes populares para ter o direito a uma vida digna e em liberdade, à educação, ao bem estar social, a decidir pelo voto os destinos do Brasil. Direito este que, de tempos em tempos, foi usurpado pelas classes dominantes quando seus privilégios são ameaçados e seu domínio de classe questionado pela luta incansável pela distribuição da renda e da riqueza criada por elas.

Se observarmos como nossas elites exercem o poder e apelam para as armas ao longo da história, quando seus privilégios estão em risco, entenderemos que não há saída sem a unidade das forças de esquerda e sem a construção de uma força popular organizada para apoiar as reformas estruturais que o país reclama para retomar o caminho histórico de seu desenvolvimento nacional.

Basta vermos como a direita tem acordo natural e básico sobre as reformas ultraliberais para constatar que é urgente que nós, da esquerda, temos que construir um acordo sobre as reformas política, social e nacional reclamadas pelo atual momento histórico. Assim, nossas tarefas principais são a unidade e a construção de um programa de mudanças; e a organização de uma força popular para sustentar nosso governo. Toda experiência histórica — inclusive a recente, com os quatro governos do PT — indica que, sem unidade e alianças, não governaremos e estaremos sempre na oposição ou em governos limitados pela força da elites. Força esta amplificada via os aparatos do Estado que as elites não vacilam em colocar a seu serviço, como no recente golpe contra o governo Dilma.

Mas o Brasil de hoje não é o do início da década de 2000. Exige das esquerdas novas formas de luta e de organização tanto em decorrência de nossa ausência nos bairros e territórios como de nossa débil atuação nas redes sociais como demanda gerada pelas novas agendas — as novas formas de organização do mundo do trabalho, as exigências da revolução tecnológica, as mudanças do cenário internacional com a ascensão da extrema direita. Sendo o Brasil, nesse caso, uma potência média com vocação regional e base industrial e científica para ser soberano e autônomo, no nosso horizonte sempre estarão colocados a questão nacional e o poder militar.

A principal tarefa das esquerdas é dar resposta ao novo mundo do trabalho, onde ganham espaço os trabalhadores autônomos e precarizados, e às mudanças culturais e de classe ocorridas na última década. As batalhas são de médio e longo prazo e exigem uma política de acumulação de forças. As frentes são muitas: a política onde se disputa governos e Parlamento; as sociais, onde há que se reconstruir o movimento sindical e popular partindo da experiência da décadas de 1970 e 1980, mas levando-se a nova realidade. É imperativa a volta aos bairros para a disputa politico-cultural com a direita e as igrejas neopentecostais. Esta é pré-condição para se sair da defensiva e retomar bases sociais e eleitorais.

Os sindicatos têm que atuar para além do trabalho formal e alcançar os desempregados, informais e pequenos negócios, ir aos bairros também e se autofinanciar. Sem isso, não haverá movimento organizado e nem autonomia. A mesma lógica vale também para os partidos políticos de esquerda, hoje prisioneiros dos fundos eleitoral e partidário e correndo o risco de ficarem sem saída  se os fundos forem extintos, como aconteceu com o imposto sindical.

Lutas democráticas, ambientais, culturais, em defesa da pluralidade, da diversidade, dos direitos da mulher, dos negros e negras, dos jovens, dos idosos que crescerão e muito nos próximos anos com o fim do nosso bônus demográfico.

As mudanças tecnológicas e culturais já desenharam uma nova composição das classes trabalhadoras e novos meios de comunicação, organização e luta. Frente a este cenário,  o atraso e o amadorismo das esquerdas devem ser superados e já, sob pena da morte dos atuais partidos e lideranças, sindicatos e organizações populares. A maré das mudanças não respeita lideranças, feudos e territórios como a recente experiência de luta nas ruas e nas urnas nos provou e nos custou grandes derrotas.

Se é verdade que se conforma uma nova aliança para estabilizar o governo Bolsonaro e avançar nas contra-reformas ultra liberais, também é fato que haverá luta social dada a natureza ultra concentradora da renda e riqueza decorrente da tardia imposição desse modelo num mundo onde potências regionais e as grandes se preparam para uma nova divisão neocolonial sob a égide do capital financeiro e da ascensão chinesa, russa, indiana, turco e iraniana.

Com tenho dito, a questão que nos atormenta e ameaça é se os atuais núcleos dirigentes e  lideranças das esquerdas estarão à altura do desafio de se autorreformar. Ou serão varridos da história por novas lideranças e organizações partidárias.

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